Junção entre um ritmo inconfundivelmente originário das ruas de Salvador e um universo de sons e melodias que possuem a marca palpável de um grupo de jovens músicos e produtores sediados em terras cariocas, o primeiro cd de Quito Ribeiro é menos uma questão de fusões musicais do que um espelho de sua própria trajetória pessoal.
Soteropolitano radicado no Rio de Janeiro há mais de dez anos, Quito literalmente torna estes dois ambientes musicais "Uma Coisa Só" - pois dentro de sua vida musical eles sempre caminharam juntos, unidos. Quito Ribeiro possui uma já longa carreira como compositor, começada numa parceria com Lucas Santtana, nos primeiros anos da década de 90. Tendo sido gravado por algumas das mais importantes cantoras do período (como Daniela Mercury e Ivete Sangalo, e ainda Jussara Silveira, Daúde, Katia B), além de Gilberto Gil, Gal Costa e Orquestra Imperial, Quito estréia como intérprete de suas próprias músicas neste CD gestado ao longo de cinco anos de composições, gravações com os músicos/amigos e a realização de alguns shows no Rio e em Salvador.
"Uma coisa só" é a percussão marcante do baiano Marcio Victor (líder do grupo Psirico) aliada aos sons múltiplos dos cariocas membros do projeto "+2" (Domenico, Kassin e Moreno); a bateria do franco-africano-carioca Stephane San Juan unida ao canto dos angolanos Dodô e Euclides; o violão bossa nova do baiano-tribalista Cézar Mendes às guitarras percussivas do carioca Davi Moraes; O piano from Ipanema de Daniel Jobim ao do músico de Bangladesh Kishon Khan - tudo isso orquestrado pela produção de Pedro Sá e Chico Neves (que também tocam no disco).
À medida que são apresentadas as faixas do disco, de alguma forma somos remetidos ao clássico trabalho de Tom Zé, como se Quito fizesse aqui o seu "Estudando o Samba-Reggae".
De fato, o som deste "Uma Coisa Só" parte de uma apreciação profunda da sonoridade do samba-reggae baiano, especialmente da batida característica do bloco afro Ilê Aiyê, parecendo querer explorar tanto suas raízes primeiras (samba, reggae, toques de candomblé) quanto projetá-lo para um possível futuro, a partir da sua "decomposição" pelas batidas funk e/ou pelo dub que outros elementos musicais trazem - com o reconhecimento da importância do que Carlinhos Brown já trouxe para este universo. O resultado é um som ao mesmo tempo novo e plenamente reconhecível (pois parece ter existido desde sempre), e cujas pontes erguidas são muito mais amplas do que apenas sua ligação geográfica mais direta. Trata-se de uma ponte entre tempos e espaços que resulta absolutamente plantada no hoje, 2007.
Eduardo Valente
Julho/2007
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